Empreender com filhos pequenos: organizar a casa, o trabalho e a vida real
- Fernanda Daher
- 18 de mar.
- 3 min de leitura

Existe uma imagem muito bonita, quase romântica, sobre empreender. A ideia de ter o próprio negócio, trabalhar com o que se ama, organizar os próprios horários. Durante muito tempo, eu também imaginei que seria assim.
Mas a verdade é que empreender, especialmente com filhos pequenos é um exercício diário de equilíbrio entre trabalho, casa e maternidade.
Acontece entre brinquedos espalhados pela sala, entre uma máquina de roupa que precisa ser estendida e um café que esfria na mesa porque alguém pediu ajuda para encontrar alguma coisa. Acontece com listas abertas no computador e um pequeno ser humano perguntando, pela terceira vez em cinco minutos, se tem maçã.
Quando criei o Atelier Pipa, eu imaginava que conseguiria organizar melhor os meus dias. Teria mais autonomia sobre o tempo, mais presença na rotina da família. Em parte, isso é verdade. Mas junto com essa liberdade veio também uma espécie de quebra-cabeça diário: como fazer caber tudo dentro do mesmo dia.
Porque quem empreende sabe que o trabalho não termina quando fechamos o computador.
Sempre há um pedido para embalar, uma ideia nova que aparece à noite, um produto que precisa ser fotografado, um e-mail que não pode esperar muito. Ao mesmo tempo, a casa continua existindo. A louça aparece na pia. A roupa se acumula no cesto. O jantar precisa acontecer.
Uma coisa que ajuda muito nessa equação é que aqui em casa nada disso é uma responsabilidade de uma pessoa só. Meu marido participa de tudo e realmente põe a mão na massa. Tanto na rotina da casa quanto nas criações da papelaria. Muitas vezes as ideias surgem em conversas despretensiosas na cozinha, enquanto um de nós corta legumes e o outro comenta sobre alguma nova possibilidade de produto.
Ainda assim, existe um exercício constante de organização.
Uma das coisas que aprendi ao longo do tempo foi aproveitar muito bem o período em que meu filho está na escola. É impressionante como essas poucas horas podem se transformar em um pequeno universo de coisas resolvidas, tanto da casa quanto do trabalho.
Às vezes é o momento de responder e-mails e organizar pedidos. Em outros dias é a hora de adiantar a roupa, resolver compras da semana ou simplesmente colocar um pouco de ordem no que parece ter se acumulado nos últimos dias.
Alguns pequenos sistemas começaram a aparecer naturalmente na casa.
Um bloco de lista de compras na porta da geladeira onde todo mundo vai anotando o que acabou. Um cardápio semanal ao lado, que ajuda a diminuir aquela pergunta eterna de fim de tarde: “o que vamos jantar hoje?”. E o desk planner sempre aberto na mesa de trabalho, onde vou anotando tudo ao longo do dia para não confiar apenas na memória.
Não é uma organização perfeita, e talvez nunca seja. Mas esses pequenos apoios deixam a rotina mais leve.
Por muito tempo eu achei que o segredo era encontrar o cronograma perfeito. Aquela rotina bem desenhada em que tudo funcionaria: trabalho, casa, família, tempo criativo.
Mas a verdade é que, com crianças pequenas, os dias raramente obedecem a cronogramas rígidos.
Há dias em que o trabalho rende muito. Há dias em que quase nada sai como planejado. Há manhãs tranquilas e há tardes em que tudo parece acontecer ao mesmo tempo.
Com o tempo, comecei a entender que talvez o objetivo não seja controlar completamente o dia, mas aprender a dançar com ele.
A casa nem sempre estará impecável. O trabalho nem sempre estará adiantado. E está tudo bem.
Empreender enquanto se cria um filho é, de certa forma, aprender a construir algo aos poucos, com interrupções, com pausas inesperadas, com pequenas vitórias espalhadas ao longo da semana.
E talvez seja justamente isso que torna tudo mais verdadeiro.
Porque no meio dessa rotina imperfeita também existem momentos muito bonitos: um desenho deixado na mesa enquanto você trabalha, uma conversa rápida na cozinha que vira ideia de produto, a sensação silenciosa de estar construindo algo que nasceu das próprias mãos.
Empreender, afinal, não acontece em escritórios silenciosos e perfeitamente organizados.
Às vezes acontece no meio da sala, com blocos de montar no chão, um planner aberto na mesa e alguém perguntando mais uma vez se ainda tem maçã.
E, no fim das contas, talvez seja exatamente assim que ele deve acontecer.

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